
Vestígios é uma intervenção artística contínua por meio da inserção de pequenas esculturas de cerâmica em diversos ambientes. Marcadas por gestos dos dedos e mãos, as esculturas se assemelham a pedras e simbolizam a presença da artista. Ao serem depositadas no solo, tornam-se parte do local, se misturando ao espaço onde foram inseridas ou sendo encontradas por outras pessoas.
A obra começou a ser composta em 2023, quando a artista realizou uma viagem para Portugal enquanto pesquisava os usos do barro e manifestações rupestres. Assim surgiram as pedras marcadas por dedadas. O projeto cria um jogo entre a intenção da ação e a imprevisibilidade, seja da natureza ou do público. O percurso se torna parte da obra, criando uma cartografia na qual a artista desenha seu trajeto. Sujeitas ao desgaste natural, deslocamento ou desaparecimento, as esculturas podem seguir seu próprio caminho, tornando a obra viva, não pertencente a um único lugar.
De março de 2025 a julho de 2026, a artista esteve em uma vivência nômade pelo Brasil, contribuindo para a expansão da obra. Foram depositados cem Vestígios, registrados na plataforma Google Maps, serviço gratuito de pesquisa e visualização de mapas, imagens de satélite e navegação GPS. Ao partir de um gesto deliberado, surge uma contradição: a obra é criada para deixar uma impressão no mundo, enquanto o lugar que a recebe pode não autorizar sua presença. Entre a autonomia da ação artística e as regras que regulam os espaços, Vestígios questiona os limites entre permanência, intervenção e intrusão.
Além da ligação direta com a terra, o uso da argila também cria uma relação simbólica com a natureza através do ato de “devolver” as peças queimadas para diferentes solos, como um contraponto à tradicional ideia de consumo dos objetos. Apesar da cerâmica possuir grande durabilidade, sua permanência no território é instável e está sujeita à transformação, assim como as paisagens onde são inseridas. A dimensão corporal se manifesta de forma não figurativa: as esculturas funcionam como extensões da passagem física. O gesto, inicialmente concentrado nas mãos, desloca-se para o corpo em movimento, fazendo da caminhada, do contato e da descoberta de cada lugar manifestações de prazer. Cada peça torna-se um pequeno testemunho, um fragmento de intimidade deixado no mundo, criando possíveis encontros entre desconhecidos. A obra abre espaço para uma reflexão sobre as marcas que deixamos uns nos outros e sobre formas de coexistência com os diversos ambientes que habitamos.
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